A Estética da Liberdade

November 21, 2017

Ao ver as fotos de Ricardo Braescher, de sua seleção cuidadosa, tão repleto de cores e senso estético refinado, reconheci a emoção. Como convidado a refletir sobre ele, imediatamente conectei a memória do primeiro encontro com este lugar tão especial. No verão de 2007 fui apresentado a Punta del Diablo, indicado por amigos de Maldonado, com os quais pensava em fazer um investimento em Punta del Este. Buscávamos terreno para construir algo, uma casa, uma pousada, um investimento imobiliário, enfim. Com pouca oferta por ali, sugeriram-me esta localidade. Como Punta del Diablo fica no caminho da volta para o Brasil, passamos ali, sem muita expectativa.

 

Como sugerem as histórias de amor, foi encantamento à primeira vista. Logo na entrada do povoado, no caminho entre a estrada e a praia, já se  percebiam as peculiaridades e sutilezas deste lugar, onde a Arquitetura é tratada com carinho genuíno.

 

Vínhamos desde La Barra, reduto de arquitetura charmosa e integrada à natureza, inundados de respostas arquitetônicas sensatas e agradáveis aos bosques dessa praia. Saindo dali pela Ruta 9, somente pastagens. Depois de 180 km de estrada rodeada de campo, lavados das imagens anteriores, como o faz a água entre degustações de vinho, já ao entrar na via de acesso à praia, recomeçamos a ver o mesmo padrão de resposta de La Barra, mas mais destacadamente – casas essenciais, coloridas, simples, acolhedoras e, principalmente, libertas de reduções espaciais que as limitem no envolvimento com a praia. Pouquíssimos muros nos alertam para essa integração amorosa e tranquila da construção com o cenário, entregue naturalmente pela região – dunas e vegetação típica dela – em estado bastante preservado.

 

 

São muitas as construções pequenas, mas plenas de arquitetura. Predomina a habitação, a vivenda por definição, com espaços externos destinados à extensão de atividades do cotidiano. São expressivas. Quase todas com uma expressão de jovialidade. Nas cores, na materialidade e nas suas janelas, sempre tão amigáveis!

 

Nessas casas, e em como estão dispostas, o encantamento encontra sua plenitude. Essas vivendas são, em sua maioria, de tal forma plantadas, que a importância de demarcação dos pequenos terrenos individuais perde o sentido, já que na prática dialogam com milhões de metros quadrados de uma superfície muito mais extensa - toda a praia! A ausência de muros as conecta de forma enriquecedora. Ali se entende como os muros trabalham no sentido de empobrecê-las, restringindo-as a apenas poucos metros quadrados contidos, frente a tanta paisagem disponível. São casas e pousadas que se integram em um tecido que oscila entre o urbano e o rural, numa proporção sempre humanizada. Na maioria delas se percebe a preocupação, bem solucionada, de dar ao usuário o máximo de identidade, bem como dimensão emocional para o bem-estar, proporcional aos chinelos, bermuda e camiseta, kit natural no verão de Punta del Diablo.

 

Por outro lado, suas soluções construtivas são tão compartilháveis! Nascem da escassez de recursos comerciais e remetem a tecnologias ancestrais, inteligentes e simples. Ponto a favor de conectar-nos à memória coletiva da escala da mão humana.

Por mais que cantemos a grande arquitetura das grandes realizações, dos arranha-céus e construções de impacto urbanos, sempre surpreende-nos como é na pequena vivenda que se revela o conteúdo afetivo fundamental. Punta del Diablo, por sorte, teve vocação por vários aspectos somados, para atrair e realçar o trabalho laborioso de construtores e arquitetos, anônimos ou renomados, para  realizarem ali a sua mais dedicada afeição.

 

Aliás, o ar recendia a afeição em cada viela e jardim daquele pequeno povoado. Respira-se o clima de liberdade criativa associada à criatividade no escasso. É uma estética que toca-nos justamente através da sensação de liberdade de desfrutar o que nos dispõe o Mundo. Sem culpas! De bermuda e camiseta...

 

Braescher capta muito bem esse estado emocional, na forma e nas cores de suas escolhas de objetiva. Capta de forma a facilitar e guiar-nos francamente o mergulho nessa atmosfera única, com mestria. Mestre na Arte de  retratar e revelar-nos o Invisível

 

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